Amor em pedaços

16

de
novembro

O que faltava

Imagem de Soraia A Guedes

 

Saiu de casa com a certeza de que voltaria com tudo diferente. Talvez porque tivesse decidido que aquela estorinha enfim, devesse ter seu fim, talvez porque sentia que alguma coisa estava por vir.

Aquela máxima de nada acontece por acaso era seu slogan.

Casa-aeroporto-aeroporto-hotel. Foi o máximo que se permitiu para chorar pelas circunstâncias do dia. Depois dali, só aceitaria o que lhe fizesse bem.

Trabalho, muito trabalho era o que ela tinha pela frente. Ansiedade, preocupação, solução de pendências e problemas do tal evento. Fora isso, qualquer outra coisa não ocupava nem 5 minutos de sua atenção.

Saíram para divertir. Ela e os colegas de trabalho, mais alguns poucos convidados. Riu, contou estórias, ouviu outras, bebeu só dois chopes e foram embora. No carro cheio, de volta ao hotel, parecia dopada, pois só conseguia prestar atenção no que sentia quando se esbarrava no rapaz ao lado. Entre freadas e aceleradas, seu corpo tremia e ela sorria, sozinha, por redescobrir o desejo. Estava feliz.

Devemos dizer talvez o quanto essa atitude é juvenil, mas acho que para ela qualquer consideração não vai servir de nada.

Chegou e dormiu sorrindo. Sua colega de quarto devia ter estranhado, mas não disse nada no outro dia.

Trabalhou muito todos os dias, exauriu-se. Acordava cedo e dormia tarde, mas estava sempre com sorriso na cara. Ninguém podia imaginar, mas o trabalho dentro dela era ainda maior.

Via sempre o rapaz, que a cumprimentava efusivamente. Ela se esforçava para que não transparecesse seu interesse.

Até que um dia quebrou o protocolo. Aceitou o convite para jantarem.

Ela e ele.

Não estava mais preocupada, achava sim, que merecia, que precisava daquilo.

Tomou banho demorado, usou sua melhor roupa da mala, se pintou, se perfumou. Fez caras e bocas em frente ao espelho e saiu.

Riram, jantaram e conversaram muito. Ocasionalmente, um encostava no outro, pela necessidade do encontro das peles. Ele surpreendeu e a ofereceu uma garfada de polenta. Ela se desviou e justificou que não gostava de polenta.

Se arrependeria mais tarde, depois que percebesse que afinal de contas, uma garfada de polenta não devia matar ninguém.

A conta já tinha sido paga, mas nada ainda tinha acontecido. Ela, que não era boba nem nada, convidou-o para esticar a noite num lugar onde pudessem dançar.

E lá estavam eles, rindo ainda mais. Tinham entrado sem fila, foram tidos como gringos e estavam na melhor mesa da casa…

Falaram dos seus filmes prediletos, e conversaram mais ainda, sobre tudo e poucas coisas. Até que ela decidiu que já estava na hora.

Mas ele deve ter percebido, porque imediatamente avançou, ela não recusou,e se beijaram efusivamente. O beijo era dos melhores. Foi esperado, desejado e cumpria perfeitamente sua função de divisor de águas. Se beijaram mais e mais, cada vez mais demorado.

Não sabia se já tinha passado uma música, mais, menos, não importava! Sabia que as coisas já não eram mais como antes. E isso basta.

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