28
de
março
O choro

Imagem de Gauguin
Quando não conseguia dormir, pensava pensamentos bobos. Cultivava sonhos impossíveis, criava textos que nunca seriam publicados. Pensava em tudo, menos em alimentar esperanças futuras, rasos pedidos de desculpas.
Certo dia porém, quando se viu só, tentou pensar em um monte de coisa, mas o cérebro insistia em estar no comando. Os risos voltaram à tona. Era distingüível o dono do sotaque carregado. Lembrava-se de tudo, como se tivesse sido ontem.
Tentou não sucumbir a esses pensamentos e ligou a TV, deixando o volume bem alto.
A vontade era de ensurdecer a voz que vinha de dentro.
Deitou na cama e chorou. Chorou copiosamente, como se acabasse de perder um bebê.
Chorou pela vida toda, mais do que por aquele momento.
Cuspiu o emaranhado instalado em sua garganta. Cuspiu todas as decepções da vida.
Chorou alto, já que ninguém podia escutar.
Chorou o descaso das pessoas, chorou a vida que não deu trégua. Chorou o cachorro longe, a família e os amigos em seus rumos tão incertos. Chorou a solidão, o excesso de competição, a maldade das pessoas. Chorou as dores de cabeça, chorou o desejo de ser mãe, chorou não poder.
Chorou até que se cansou.
Levantou, tomou seu banho e se arrumou.
Não havia plano algum. Mas queria estar (bem) preparada para o que viesse.
Na cama, os lençóis molhados como se tivessem sido lavados.
Ela lavou a alma.

