11
de
janeiro
Meu testamento
Um dia perguntei qual a idade/época certa para se fazer um testamento.
Me responderam que eu nada tinha, e portanto, não precisaria me preocupar com isso.
Fiquei pensando em tudo o que eu não tinha, e cheguei à conclusão de que eu tenho sim, muitas coisas a deixar no meu testamento.
E a minha (pequena) coleção de livros? Ainda não li todos, mas escolhi a dedo cada título. Imaginei um enredo com a capa de cada um deles. Por isso talvez nunca leia alguns…
Eles ficariam com qualquer pessoa que preze e valorize a leitura.
Tem também as fotos que carrego comigo. Os álbuns gastos pelo tempo que passo folheando-os, lembrando com saudade de cada pessoa e cada tempo que vivi. Para cada foto, uma experiência. Queria que alguém passasse tanto tempo com elas quanto eu, que tentasse descobrir a situação de cada uma delas.
Que cada personagem da minha vida tivesse uma lembrança consigo, que as fotos se espalhassem por onde andei.
As peças de roupa seriam doadas. Todas. Que quem se interesse faça novas estórias com aqueles pedaços de tecidos. Que use o vestido vermelho para seduzir, que conquiste o namorado com a sandalinha branca, que se esbalde de dançar com o vestido rosa, que vá a qualquer lugar com a calça jeans de lycra, que se proteja do frio com o sobretudo de couro.
Os arquivos do computador seriam apagados, excluídos. Todos. Exceto meus textos. E esses eu daria para minha irmã. Que ela os relesse para rir, chorar ou só lembrar de mim.
Minha DVDoteca seria dada à minha mãe, para que ela pudesse assistir aos filmes, seriados e concertos quando estiver bem velhinha e pouca companhia.
As revistas e anuários seriam do meu pai. Que ele visse as imagens coloridas e diferentes quando a vista estiver cansadinha demais para leituras.
As bijoux e jóias iriam para meus descendentes. Que vendam, guardem ou usem com freqüência, mas que continuem a deixar cada uma delas em suas caixinhas específicas. Que tenham cuidados.
Os badulaques, lembranças de viagens e pelúcias seriam deixados ao meu companheiro. Que ficassem guardados ou expostos, desde que trouxessem boas lembranças minhas.
Ah! Meus diários antigos e outras anotações pessoais merecem o respeito da descrição e privacidade, e portanto, devem ser carbonizados.
O resto, todo o resto, não me importa.
Que fique a critério de cada um.
Lixo, entidade beneficente ou armário.

