11 de outubro de 1994.
Saio da escola, alguns garotos programando uma briga na esquina, eu como sempre toda serelepe, até que anunciam: "Seus pais vieram te buscar." Eba! Certamente estariam por ali no horário de minha saída, e resolveram me esperar.
Logo que avisto o carro reconheço algo estranho. Não, estranho não. Novo. Me aproximo e vejo uma cadelinha branquinha, medrosa, isolada em seu cantinho. Os outros membros da família eram só sorrisos. Até a mãe, que nunca foi muito de cães…
Em casa nem se via a… Princesa! Esse foi o nome escolhido, por motivos que não fazem mais sentido. No terceiro andar da casa, o animalzinho novo se escondia, se isolava e frustrava meu desejo de ter em um cãozinho meu grande companheiro.
Com o tempo a cadelinha conquistou a todos. Sempre muito quieta, recusava os brinquedinhos que lhe eram oferecidos, mas nos compensava com seu amor incondicional. Animal com amor incondicional? Logo um cão? Que precisa que você o alimente, o trate com mimos, esteja presente…Mas com a Princesa tudo era detalhe. Ela amava nossa companhia, mas nunca se rebelou quando só. No fundo, sabia como era amada por todos. Sabia que nós éramos reféns e dependentes dela mais que o contrário.
Tão linda, tão perfeitinha, que nunca víamos suas necessidades.
Muitos acontecimentos nesses 15 anos de vida parecem lendas, quando expostos. O veneno de rato, o estuprador pintcher, o parto em cima da hora, a cirurgia para retirada do ovário, a bola de tênis na barriga e as ligações de um dia inteiro para a clínica. Sem contar da cegueira momentânea, a disposição em brincar com o Théo repentina, a surdez… E as convulsões.
Mas delas não quero lembrar.
Lembro da minha branquinha de pêlos macios, que a todos, sem exceção encantava. Lembro do dia em que nadou no Rio do Peixe, do dia que fugiu da casa da Renata e foi pra casa, lembro de passear pela Faria Pereira com a coleira vermelha, dos passeios de carro, da visita ao Mineirão, das viagens de taxi…
Lembro de pão molhado no café com leite, da mortadela, do presunto, da carne moída e o queijo, que até não lhe fazia bem…Lembro da sua barriguinha quando tosava: quentinha e macia. Lembro de morder a minha asinha de frango peluda, de seu latido escandaloso quando o rei da casa chegava, de sua espera fiel ao lado da patente, da confiança de se deixar o prato no chão, lembro quando o pão agarrava no céu da boca, quando ela acordava a gente pra ir lá fora fazer xixi. Lembro de sua insistência!
Lembro quando saía da sala assim que um jogo começava e a gente a distraía:"Olha lá o Matheu e a Juliana!", mas ela nunca caía. Lembro do desespero ao ouvir fogos de artifício.
Lembro do desprezo pela Bella, da queda na casa nova, dos lacinhos rosas, da elegância em não ficar ao pé da mesa pedindo, aliada à inteligência do artifício de olhar pedindo. Lembro dos apelidos, dos roncos, de chegar na sala e interromper a atenção de todos, que disputavam por sua preferência. O caminho era certo: um dos pares de sapato.
Cuidar dela foi fácil, e por isso nos sentimos aptos a adotar outro amor de cão.
Tenho muita falta disso tudo. Tenho falta da minha perfeiçãozinha, minha filhinha querida, meu amor eterno.
A maior dor da minha vida foi tê-la perdido. É saber que em casa não terá meu anjinho a me esperar e comemorar a minha chegada.
Que Deus a tenha no melhor lugar do céu. Ela merece.